Antes de existir um Instituto, existia uma mulher.
Seu nome era Maria Paulina Avelino Marques da Silva. Mas, para a Brasilândia, para as famílias que encontraram alimento em suas mãos e para todos que foram tocados por sua generosidade, ela sempre será a nossa eterna Vó Tutu.
Nascida em 27 de outubro de 1951 e criada no território da Brasilândia, Vó Tutu conheceu cedo a dureza da vida. A fome não foi, para ela, uma palavra distante. Foi memória. Foi infância. Foi ferida. Foi escola. Talvez por isso, quando via uma mãe sem ter o que colocar na mesa, ela não conseguia virar o rosto. Ela sabia o que era acordar sem pão. Sabia o peso de criar filhos em meio à dificuldade. Sabia que, para quem tem fome, um pedaço de pão não é pouco: é respiro, dignidade e esperança.
Mãe de dez filhos, seis biológicos e quatro adotivos, viúva, mulher negra, periférica, trabalhadora e profundamente marcada pelo cuidado, Vó Tutu construiu sua vida servindo. Trabalhou por anos no Instituto da Criança do Hospital das Clínicas, onde também expressava seu coração solidário. Segundo registro da Câmara Municipal de São Paulo, desde a década de 1990 ela já atuava voluntariamente em ações sociais na Brasilândia, organizando campanhas para crianças em situação de vulnerabilidade e distribuindo roupas, calçados, brinquedos e esperança.
Mas foi na pandemia que sua história atravessou os muros da própria rua e emocionou o Brasil.
Em 2019, com apoio da família, Vó Tutu realizou o sonho de abrir um restaurante. O sonho, porém, durou pouco. Com a chegada da Covid-19, o restaurante precisou fechar as portas. Enquanto o mundo se isolava, a Brasilândia sofria. O medo do vírus se misturava ao medo da fome. A pandemia escancarou desigualdades antigas: famílias sem trabalho, mães sem renda, crianças sem alimento e idosos sem segurança. Naquele momento, Vó Tutu poderia ter pensado apenas na própria dor. Mas ela escolheu transformar a própria casa em abrigo de solidariedade.
Em abril de 2020, com recursos da própria pensão, ela colocou a mão na massa e assou os primeiros 100 pães para distribuir aos vizinhos mais afetados. Era simples. Era pequeno. Era quase impossível. Mas era amor. E, quando o amor nasce verdadeiro, ele se multiplica.
A fila cresceu. A fome apareceu. A necessidade bateu à porta. Então seus netos gravaram um vídeo pedindo doações de farinha, leite, ovos e ingredientes. A resposta veio como um abraço coletivo. Moradores, amigos, anônimos e pessoas que também tinham pouco começaram a ajudar. Era a periferia cuidando da periferia. Era a Brasilândia provando que, onde falta recurso, sobra humanidade.
A primeira fornada virou centenas. Centenas viraram milhares. Sem máquinas, sem estrutura e sem tecnologia, Vó Tutu chegou a produzir mais de mil pães por dia. Depois, com a mobilização de voluntários, doadores e pessoas que enxergaram a grandeza daquele gesto, o projeto cresceu. O apresentador Luciano Huck conheceu a história e ajudou com máquinas e forno. Mais tarde, em 2021, o espaço recebeu uma grande reforma no programa Domingão com Huck.
A causa também tocou nomes importantes da gastronomia, da comunicação e da solidariedade. Paolla Carosella, Ana Paula Padrão e Dr. Felipe Rossi, da organização Por1Sorriso, estiveram ligados à visibilidade e ao apadrinhamento do projeto, ajudando inclusive na regularização documental da iniciativa. Em 2023, o trabalho de Vó Tutu foi reconhecido pela Veja São Paulo Comer & Beber, na categoria especial Causa Social: uma homenagem a uma trajetória que ultrapassou a gastronomia e se tornou símbolo de cidadania, cuidado e amor em ação.
Mas quem conheceu Vó Tutu sabe: os prêmios nunca foram o centro. O centro sempre foi a fila. O rosto de quem esperava. A mãe levando pão para casa. O idoso recebendo chá. A criança tendo algo para comer antes do dia começar.
O Instituto Ações Sociais Vó Tutu nasceu desse chamado. Hoje, na Rua Virajuba, 1099, na Brasilândia, o Instituto distribui aproximadamente 2.000 pães e centenas de litros de chá por dia, além de realizar ações com cestas básicas, kits de higiene, roupas, fraldas, apoio psicossocial, atividades para idosos e cursos de capacitação. Em parceria com instituições como o Senai, o Instituto também passou a oferecer formação profissional, porque Vó Tutu entendia que o pão mata a fome de hoje, mas a oportunidade ajuda a mudar o amanhã.
A frase que resume esse legado é profunda: tirar da fila do pão e colocar na fila da produção. Vó Tutu não queria apenas entregar alimento. Ela queria devolver dignidade. Queria que mulheres, jovens e famílias da periferia descobrissem seus talentos, aprendessem um ofício e encontrassem caminhos para sustentar a própria casa com orgulho.
Em 3 de junho de 2025, Vó Tutu partiu. Mas quem vive para servir nunca desaparece por completo. Ela ficou no cheiro do pão saindo do forno. Ficou nas mãos dos voluntários. Ficou na memória das famílias que choraram sua despedida. Ficou na Brasilândia, esse território de luta, cultura, fé e resistência. Ficou em cada pessoa que entendeu que solidariedade não é sobra: é decisão.
Depois de sua partida, o legado continuou. Sua filha, Vânia Cristina, passou a dar sequência ao trabalho filantrópico, e moradores da Brasilândia chegaram a se mobilizar para que o nome de Vó Tutu fosse lembrado até em uma futura estação de metrô da Linha 6-Laranja. Mais do que uma homenagem, esse movimento mostra algo que a comunidade já sabe: Vó Tutu se tornou patrimônio afetivo, moral e social de um território inteiro.
A história da Vó Tutu não é apenas a história de uma mulher que fez pão.
É a história de uma menina que conheceu a fome e decidiu alimentar. De uma mãe que enfrentou a dor e decidiu acolher. De uma avó que viu a miséria de perto e decidiu não se calar. De uma mulher da Brasilândia que, com farinha, forno, fé e coragem, ensinou ao Brasil que amor também se amassa, também cresce, também aquece e também se reparte.
O Instituto Vó Tutu existe para que esse legado nunca pare.
Porque enquanto houver alguém com fome, haverá uma missão. Enquanto houver uma família precisando de apoio, haverá uma porta aberta. Enquanto houver uma comunidade disposta a cuidar dos seus, Vó Tutu continuará viva.
Vó Tutu vive em cada pão entregue. Vive em cada voluntário. Vive em cada doação. Vive em cada família que volta para casa com alimento e esperança. E vive, principalmente, na certeza de que uma vida movida pelo amor pode mudar o destino de milhares.
Ajude este legado a continuar. Cada doação mantém acesa a missão que Vó Tutu começou com as próprias mãos: alimentar corpos, acolher famílias e devolver dignidade à Brasilândia.
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